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Suely canta poemas de Vilebaldo Rocha

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

ELEGIA PARA PICOS

Linda flor selvagem!
Teu nome esculpi em meu peito a ferro e fogo,
De um jeito único e soberano
Que a cada dia mais te amo,
Mais proclamo meu amor por ti.
Dormirás eternamente em meu verso.

Desenhei este amor em mim,
Na solidão dos caminhos, nos descaminhos;
Nos ninhos dos passarinhos à beira das estradas.
Menino falando sozinho no seio da amada,
Nas ruas cruas, sem asfalto e sem farol,
Sob o teu lençol de vento quente.

Picos, minha amada!
Eu e teus becos. Eu e tu no tempo dos currais;
Canaviais; carnaubais; o rio sem gravata de cimento
Às vezes arrastava as plantações de alho e cebola
E deixava os homens a margem
Com os olhos rasos d’água, temperando o chão de suor e lágrima.

Picos, minha amada!
O tempo muda os homens
E os homens mudam as cidades.
Mas enquanto eu não morro, tu dormirás em minhas retinas.
Eu sou tua fotografia, eternizada e renovada a cada instante.
O velho e o novo nos meus olhos-poesia.

Minha amada! Minha flor selvagem!
As flores do pau-d’árco admiravam-te à distância,
Mas a serra já não flora; os homens comeram as flores.
Teu vento quente dá a temperatura do meu verso:
Simples e humilde como o coração de Jesus;
Imponente e visceral como as torres da matriz.

Minha amada!
Uma antítese em meu peito;
Uma glória e uma chaga; um sorriso e uma lágrima;
Os urubus dão o tom negro de tua face;
Cantando a melancólica cantiga do desprezo;
Dançando sob o teu céu azulado.

Minha amada!
O poeta já não é tão romântico e sonhador
Para ocultar nas dobras do poema tuas mazelas.
Um olho imerso em lágrimas capta a dureza da realidade.
Os estupradores seviciam-te aos olhos de todos.
Olhos carcomidos pelo urubu da passividade.

Para sempre dormirás no meu verso
Como uma criança no ventre da mãe.
Para sempre acordarás em meu peito
Como o sol tecendo manhã
Para sempre, serás sempre amada
E ouvirás de minha boca versos na madrugada.